«Eu não quero mudar o mundo.
Não tenho tempo para isso.
Quem quer mudar o lugar do mundo actua como quem muda o lugar de um móvel:
empurra primeiro para um lado,
foi força demais,
empurra então para o outro,
agora com força de menos,
depois mais um pequeno toque para lá
e um ainda mais pequeno para lá,
e agora sim:
o móvel está no lugar.
Depois abrimos o móvel e vemos que os copos que estavam lá dentro se encontram todos partidos.
Estão a ver?
Os copos todos partidos.
Que aborrecimento.
Não nos lembramos da fragilidade do vidro.»
________
«Ontem construí um barco de pedra.
Não resultou.
Do meu ponto de vista, o oceano ainda não se encontra
preparado para as grandes invenções.
Um barco de pedra é uma grande invenção.
A água não a percebeu assim, paciência.
Gosto de inventar coisas.
Principalmente coisas inúteis.
Por isso mesmo umas pessoas chamam-me poeta, outras vagabundo.
Infelizmente são mais as pessoas que me chamam vagabundo.
Mas tudo bem.
O mundo sempre foi assim.
Sempre houve maior número de idiotas do que de outras pessoas.
A isto chama-se multidão.
Se um tipo fica sem voz vem logo uma data de gente oferecer remédios para a garganta, mas depois, quando começamos a falar, ninguém nos ouve.
Dão-nos remédios para a garganta e depois pedem-nos silêncio.
Não me parece bem.
Ou não nos davam remédios, ou deixavam-nos falar.
Enfim.
O mundo é isto.»
Gonçalo M. Tavares, «O homem ou é tonto ou é mulher»

 

Enviar um comentário

 

 

pergunta-me [se te apetecer]

pronto, já passou:

os outros:

procura [se te apetecer, também]